Pomares da Caatinga fortalece saberes, renda e conservação no território indígena Atikum
Projeto Pomares da Caatinga promove restauração ambiental, empoderamento feminino e geração de renda no território indígena Atikum, no Sertão de Pernambuco
A participação da comunidade indígena Atikum, localizada entre os municípios de Ouricuri e Trindade, no Sertão de Pernambuco, tem sido um dos destaques do projeto Pomares da Caatinga, iniciativa que alia restauração ambiental, geração de renda, valorização cultural e fortalecimento do protagonismo comunitário no Semiárido.
Desenvolvido pela Fundação de Desenvolvimento Sustentável do Araripe (Fundação Araripe), o projeto vem promovendo ações de recuperação de áreas degradadas no território indígena, ao mesmo tempo em que incentiva a troca de saberes, o empoderamento feminino e a inclusão produtiva das famílias participantes.
Empoderamento feminino e sustentabilidade no território
Agricultora da comunidade Araticum, a indígena Maiara Maria da Silva destaca que a participação nos projetos da Fun
dação Araripe vai além do empoderamento feminino e representa uma oportunidade concreta de autonomia e sustentabilidade financeira para as mulheres do território.
Segundo Maiara, os projetos possibilitam que as agricultoras tenham renda a partir de um trabalho digno, realizado no próprio território, respeitando a cultura local e a rotina das famílias do campo. “É um projeto que valoriza nossa cultura, pensa no nosso bem-estar e também traz renda e sustentabilidade para nós, que moramos na zona rural e não temos muitas oportunidades de trabalho”, afirma.
Ela ressalta ainda a importância da troca de conhecimentos entre as mulheres e da transmissão desses saberes para as futuras gerações. “Repassar esse aprendizado de geração em geração é muito importante. Assim como minha mãe me ensinou o que sei hoje, eu quero ensinar aos meus filhos o valor da terra, o respeito ao meio ambiente e a importância de preservar nossa cultura”, completa.
Recuperação ambiental e geração de renda
Para o cacique Dedé, liderança da Tribo Indígena Atikum, o projeto representa um avanço significativo para o território, que enfrentava um histórico de degradação ambiental.
De acordo com ele, a área onde o projeto foi implantado estava praticamente sem vegetação nativa, restando apenas capoeira. Com a chegada do Pomares da Caatinga, foram implantadas inicialmente 20 mil mudas, que já apresentam desenvolvimento visível. “O projeto trouxe uma nova esperança. Mesmo com algumas perdas causadas por incêndios, estamos recuperando a área e trazendo bem-estar para as famílias, não só do ponto de vista ambiental, mas também com geração de renda”, destaca.
O cacique explica que o diferencial da iniciativa está no fato de que os próprios moradores são remunerados para realizar o plantio e o cuidado das mudas. “É um benefício duplo: a gente recebe para plantar algo que vai ficar para o território. Costumo dizer que estamos sendo pagos para cuidar do que é nosso”, reforça.
Impactos sociais, ambientais e legado para o futuro
Segundo Dedé, as ações do projeto também contribuem para mudar a forma como o território indígena é visto, fortalecendo a identidade dos povos originários e sua relação histórica com a Caatinga.
Ele avalia que cada muda plantada representa esperança de um futuro melhor para as crianças da comunidade.“Hoje pode ser que a gente esteja aqui, amanhã não se sabe, mas isso vai ficar como um legado. Nossos filhos poderão dizer que seus pais, seus tios e a comunidade, junto com a Fundação Araripe, recuperaram esse território”, afirma.
A expectativa da comunidade é de que o projeto continue e seja ampliado para outras áreas que também necessitam de recuperação ambiental, não apenas no território indígena, mas em toda a região do Araripe.
Aprendizado técnico e valorização dos saberes tradicionais
O cacique destaca ainda a importância dos dias de campo e das capacitações promovidas pela equipe técnica da Fundação Araripe, que têm levado novos conhecimentos às comunidades.
Entre os aprendizados estão técnicas de espaçamento, poda, consórcios de culturas e o uso de insumos como o hidrogel, até então desconhecido pelos agricultores locais.“Sempre preservamos da forma tradicional, mas hoje, com tanta mudança climática, as plantas precisam de cuidados específicos. Esses conhecimentos estão chegando por meio da Fundação Araripe e fazendo toda a diferença”, explica.
Mulheres no centro das decisões
Dedé reforça que o empoderamento feminino é uma prioridade dentro do território e dos projetos desenvolvidos em parceria com a Fundação Araripe. Segundo ele, as mulheres têm papel central nos quintais produtivos, no extrativismo e nas decisões sobre o plantio.
O cacique cita como exemplo a coordenadora indígena Dejane, liderança feminina do território, e a jovem Gabriela Rodrigues, de 13 anos, aprendiz de raizeira, que já participa dos encontros de saberes e da troca de conhecimentos sobre o uso medicinal das plantas. “As mulheres têm um cuidado especial com a terra. Elas ajudam a definir o plantio, os consórcios, o espaçamento. A gente escuta e respeita a opinião delas, porque os resultados são sempre positivos”, destaca.
Ao unir restauração ambiental, valorização cultural, empoderamento feminino e geração de renda, o projeto Pomares da Caatinga reafirma o papel das comunidades tradicionais como protagonistas na conservação da Caatinga e na construção de um futuro mais justo e sustentável para o Semiárido.

